Sexta-feira, Julho 24, 2009

Bon vent


La petite fille de la droite aura 18 ans le 9 août! Elle vient de réussir son bac, trouver et louer son premier appart, commencera ses cours en fac en octobre. Le temps passe trop vite, en effet.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Et le Grand Jacques





Le Grand Charles





Terça-feira, Julho 14, 2009

Juliette



Juliette Greco aos 82 anos!!!!

You're the only one



Judia nascida na Tunísia, vivendo em França... dá isto!

Um ovni chamado Camille

Dutronc, Thomas



Herdeiro de Françoise Hardy e Jacques Dutronc... Les chiens ne font pas de chats

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Anaïs



Para quem não conhece a nova geração de músicos franceses, deixo aqui um exemplo. Trata-se de uma rapariga cheia de energia e imaginação capaz de imitar o sotaque escocês como ninguém em França. Só por isso ela merecia um prémio já que os franceses dão tão mauzinhos a falar línguas estrangeiras. Não se trata da grande canção "à texte" como conhecemos com o Brel mas tem um não sei quê que poderia, por uma vez, calar os nossos amigos ingleses e a arrogência deles no que diz respeito à música francesa.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Such sweet sorrow

Rescued orangutans Peanut and Pickle at the Nyaru Menteng orphanage in Borneo in http://www.independent.co.uk/environment/green-living/victims-of-the-oil-rush-1677096.html

Quinta-feira, Abril 30, 2009

The end

It's finished. Someone had finally had the courage to put an end to its misery but, how come that she didn't feel relieved, happy, smiling at her own face on the mirror? Instead, she felt... what? Blank, nothingness, a feeling of death covering the dust of the furniture, the objects, the lovely things she loved the most. Everything shattered, no joy in looking at the little statue in marble.

The end. The final stroke. No words spoken. Just silence and endless, senseless memories. The end, it is finished and nothing had yet begun.


Sábado, Novembro 08, 2008

Poetry Poesia Poésie

'To set the darkness echoing'

'I've always associated the moment of writing with a moment of lift, of joy, of unexpected reward' 'I always believed that whatever had to be written would somehow get itself written,'
Seamus Heaneyn talks to fellow Irish poet Dennis O'Driscoll.
Extracted from Stepping Stones: Interviews with Seamus Heaney by Dennis O'Driscoll, published by Faber

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Colheita de 83

muito me apraz este monólogo de gesto louco mais do que insano para relembrar Camões de quem procuro uns sonetos para que transcreva no caderno de contas e soma e multiplique.
Orações foram ditas curtas ou parafrases do que outros assim disseram mas que importa se sujidade se coloca entre o corpo e o resto e não deixe ver avançar nem sequer um milímetro.
eu amo
um contador de histórias que diga lentamente palavras de sabedoria antiga conheça de cor parábolas e ventos tempestades que se aproximem de mansinho e já ele as pressinta e que eu devolva a gramática a quem de direito e venha trocar verbos adjectivos pronomes
uma voz de lamento que farei dos meus dias de então que me embalavam na corrente mar de gente entregue à fúria de manhãs viajantes em combóios com destino muito conhecido

Sábado, Novembro 01, 2008

Não conclusivo

Eu colho nos livros, pequenas frases passageiras, que têm um mérito de morte iminente, de evasão momentânea. Que querem dizer estes fragmentos que, num simples olhar, nos indagam, interlocados eles mesmos, como se acordados de um sono profundo, lento e longo? Um sono de séculos.

O que é que acorda uma frase, um pequeno poema para um sentido completo, full, pleno de algo ainda indizível mas fresco e trépido como uma água de rio corrente. São pedaços de escrita de um livro abandonado, antes e depois, mas que tiveram um momento de glória enquanto essas palavras brilhavam na opacidade da nossa compreensão. E que querem elas dizer, essas palavras, para além do sentido que lhes é próprio e conferido por aquele que as escreveu? O que querem elas dizer, no preciso momento em que aquele que as leu, decidiu que elas valeriam a pena de sair do anonimato para a luz incerta de um outro caderno escrito na penumbra?

O que uniu ou contrapôs o que aqui deixei escrito pela mão de outros? O que me atraiu ou se atraiu simplesmente, naturalmente? No primeiro poema o final de tudo quando se atingiu o extremo, no segundo exemplo a vida como tragédia, no terceiro exemplo o carpem dies, em contraluz e oposto. No quarto exemplo a aprendizagem do método em memória para no quinto exemplo poder contar, com ínfima labareda o consumir da vida e, no sexto, encontrar a "fée du cristal des airs" sendo esta última frase uma apenas de beleza de construção, não procuro nela sentido, embora em tudo haja sentido.


Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Last but not the least

"... toi petit terrible secret, petite fée du cristal des airs".

Céline

Domingo, Outubro 26, 2008

Pari Passu

"Il faut raconter l'éparpillement d'une âme vers la mort par l'horreur et le chagrin."
Céline

Sábado, Outubro 25, 2008

One more for the road

"Les souvenirs les plus petits sont les fibres de votre âme. S'ils se rompent, tout s'évanouit".

Céline

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Tout et son contraire

"Hold to the now, the here, through which all future plunges to the past..."

James Joyce

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

Até onde se pode alcançar

Novo segmento :

"We only begin to live when we conceive life as a tragedy..."

W. B. Yeats

E não esqueceremos o comentário justo, inteligente e acerado dp J.S.Q. no post anterior.

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Escombros

Abro de novo o enorme volume do(s) diário(s) de Sylvia Plath e deparo com a primeira das exergues, a de Louis Macneice :


Having bitten on life like a sharp apple

Or, playing it like a fish, been happy,


Having felt with fingers that the skye is blue

What have we after that to look forward to?


Not the twilight of the gods but a precise dawn

Of sallow and grey bricks, and newsboys crying war.


Outras duas seguirão mais umas quantas frases de Céline que, inesperadamente, encontrei num artigo do Philippe Sollers no Nouvel Observateur.

Havemos de unir tudo isto 'in a bundle' e depois deitar por terra como se faz com as peças de um mikado insolente e veremos o que ficará, na tagente de tudo, na horizontalidade das águas de um mar pouco agitado. Construir um sentido, se tal é possível.

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Leitura



Ler é inscrever por dentro
recorte puro de palavras - exactas dimensões
penso fazer um desenho
auto-retrato
pois tudo está escrito no rosto
e resplandece no olhar

Terça-feira, Setembro 30, 2008

Visões

Ele escreveu "A minha vida não está no passado, está diante de mim", segundo Malraux e eu concordo. Está de acordo com as cores de Lisboa que mostra vivas e alegres e que eu revisito amiúde para grande prazer da alma que não será pequena neste caso.

Ela acrescenta "As mãos nunca mais serão cálidas" sem saber que tem mais do que razão e que essa razão é certeira e atinge o núcleo do que escrevo.


São ambos certeiros estes anjos guardiãos, voláteis e virtuais que me gratificam da sua presença na história que vou construindo. Mas o que prevalece é que ambos perceberam, no âmago do que digo, esse apego doentio ao fruto apodrecido e morto.

Eu sei, amigos e reconheço o que transportam como mensagem nas vossa asas. Sei onde me situo sem no entanto aí estar com complacência. O passado é o meio para compreencer o presente e poder projectar-me no futuro. Há uma dinâmica nisso tudo mas, sim, as mãos não serão nunca mais cálidas.

Vénia e chapeau bas.

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Memória

Era um fulgor ardente
Uma tábua rasa
Um olhar transparente
Mãos cálidas.

Era

Domingo, Agosto 03, 2008

Sonhos



Esse texto ressoa
como um brilho na noite.

Sábado, Julho 26, 2008

Vozes



Eu estudo um texto
Ouço-lhe a cor.

Sexta-feira, Julho 11, 2008

A estrada para Sesimbra


Era quando eu era ainda uma criança muito nova, um pouco mais velha que a rapariga da janela, só um pouco mais velha. O meu pai tinha uma paixão por aquelas velhas motos, pesadas, poderosas como um cavalo de trabalho. E íamos, os três, na moto (eu entre os meus pais, bem apertada pelos braços da minha mãe, a minha bochecha contra o couro do casaco do meu pai, ou no carro, que na altura havia de ser o Volkswagen azul claro, como no filme ("Herb???? era esse o nome?).

Era uma estrada cheia de curvas e contra-curvas. Havia grandes espaços cobertos de pinheiros por onde o carro ou a mota passava sem pressas, deslizando com a facilidade dos passeios da infância. Era uma estrada descurada, com buracos aqui e ali, já com bastante trânsito nessa altura. O meu pai adorava aquele bailado de curva e contra-curva e curva novamente. Ele conduzia com uma perícia delicada, sem arranques, fosse mota ou fosse carro. Ia-se com ele e o veículo que nos transportava acompanhando as curvas apertadas, deslizando fluidamente. Eu olhava para os pinheiros altos, sentia o cheiro da caruma, entre muitos, um dos preferidos, o calor do dia de verão.

Para chegar a Sesimbra nesses tempos era como subir e descer montanhas, suavemente. Não era nunca nauseante porque íamos em direcção do mar. It was a rollercoster of pleasure.

E passado Santana, começava-se a descida. No alto de uma colina um velho castelo que servia de cemitério e que ainda lá há-de estar. A paisagem aparecia como um triângulo invertido, uma espécie de cone onde, de repente e sempre como uma maravilha aparecia no fundo o brilho do mar. Naquele triângulo invertido aparecia o mar quase como um púbis resguardado entres as pernas cruzadas de uma mulher.

Foram muitos os anos em Sesimbra. Havia outros itinerários preferidos, como Colares, Praia das Maçãs, Guincho e a marginal desde Cascais até Lisboa.

Mas Sesimbra foi a minha infância e adolescência de verões intensos e cheios de uma leveza, de uma claridade e de uma intensidade que só se conhecem uma vez na vida.

A estrada para Sesimbra foi refeita anos depois. O meu pai perdeu muito do prazer de conduzir até là porque as curvas e contra-curvas foram mais ou menos "apagadas" como se se tivesse utilizado uma borracha. E Sesimbra encheu-se daqueles prédios horrendos da costa, a praia do porto de abrigo desapareceu com a chegada da lota que dantes se fazia na praia, na vila, os imensos peixes alinhados na areia, um cheiro intenso de algas e de homens cansados.

A minha mãe viajava entre os peixes com o seu olho acerado de cozinheira de muitos talentos enquanto eu escutava a algaraviada da lota, os homens clamando "chui!" para concluir a compra de um lote de peixe. O meu pai fumava um cigarro a alguma distância, olhando para o mar, calmo e tenso, comme à son habitude, como ele combinava essas duas coisas dentro dele não sei, mas não pareciam contraditórias.

São coisas antigas como a velha estrada para Sesimbra.

Quarta-feira, Julho 02, 2008

Resposta a José Quintela Soares




E as luvas de Rita Hayworth...


Ou o vestido esvoaçante de Marilyn Monroe...


Quinta-feira, Junho 19, 2008

Olhar Oblíquo


Houve um tempo em que o olhar se perdia num sonho paralelo, indefinido, tão longíquo como um pensamento que se liquefia e se evapora.

Houve um tempo em que o olhar, novo embora, estava já instado pela seriedade das coisas a vir. Fazia-se ligeiramente carregado, ainda interrogador e manso mas certeiro na indagação do que era já ou temível ou preparação para a guerra.

Não se sorri quando assim é. Os lábios ficam cerrados mas sem convicção, não é ainda de crispação que vão falar. Lábios unidos num mutismo de teimosia ou só de concentração.

Em que pensava a rapariga da janela quando assim olhou para a objectiva que a fixava com amor? Esse rosto que é belo (e não o sabia) tem a luminosidade do que é extremamente jovem, esse grão de pele completamente uno. Mas é quase sombrio esse olhar oblíquo, desafiando quem fotografa como se fosse um devassador de pensamentos muito intímos. É quase um olhar de fera, devastador de tristeza e força. Um animal que vai embater com os cornos duros a dureza da vida.

Os próximos anos serão os mais difíceis. Esse olhar oblíquo sabe-o já.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

A gabardine de Bogart


São imagens que ficam para toda uma vida. Não sei se foram aquelas tardes de domingo, cheias de vento e chuva, em frente da televisão do quarto pequeno, em casa da minha avó. Eram tardes cinéfilas, cheias de westerns et de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial ou uma comédia sentimental. Era eu e um tio, enrolados em cobertores para afastar aquela humidade ambiente. Víamos aqueles filmes antigos, em inglês, conhecíamos as deixas de cor. Acontecia que um filme português passasse, António Silva & Co... sim foram essas tardes de domingo, longas e chuvosas, cinzentas e cheias de vento a uivar.

A gabardine de Bogart não é só uma peça de vestuário. É um mito. É uma ode às santas tardes cinéfilas de domingo durante as quais forgei mas do que uma cultura ou nostalgia.



Terça-feira, Junho 10, 2008

Outro tanto

Por dentro do sono e deste fogo lento que me vai queimando as pálpebras, vibro intensamente na intenção de construir um poema. Um poema vibrando no ar como uma gota de água, humidade próxima do teu corpo. Respiração.

Conheço de cor a fúria hábil dos dedos
o meu calor
a raíz das coisas é também isto :
saber com a polpa do corpo
o fogo

Domingo, Junho 08, 2008

Paixão moribunda






Houve um pequeno riso muito discreto. Tentava não estar lá com muita energia. A possibilidade de um encontro, ainda que breve, frutificava o cansaço.

O tédio não seca. É como um rio abundante.
Não te falo. O silêncio é uma necessidade tão íntima quanto o sexo
esses barcos essa tempestade
onde vogas
estou cansada como velhíssima idade
e desgaste no meio dos torturosos caminhos que agora me fazes percorrer.
Estou também sofredora como inversa Mariana
então te escrevo longas cartas onde o amor é desesperado
até ao último fio de ouro.

Escrevo-te por dentro daquilo que não te digo. Repito : não te falo.
Acabaram-se-nos as histórias porque já não nos amamos.
Tu compreendias estas falarias, atitudes de quem perde o seu tempo sem mesquinhice e no calor.
Prefiro-te na distância do ténue fio que outrora nos ligava. Ofegantes na carícia da voz
um sexo latente e pulsante.

Tuas histórias não me interessam mais - oh o tédio e o mais pleno aborrecimento, vou regastando os corpos polidos
cristal -
ainda te mostro as coxas adultas juntamente como abrigo e fortaleza e Ìndias de contadores e loiças preciosas, um calor de seda

estátuas - são gregas, são gregas e em seguida são as ondas
E A AREIA
coordenação de barcos de pesca, o meu marinheiro amado e perdido, onde estás, onde estás, como gostaria de te ver
e de ter teu muito conhecimento junto de mim, tua sapiência
DO ALEGRAR
O ninho, o peixe comido junto ao mar e ao sol
ao fundo
ligeiramente embriagada junto ao teu corpo

Sábado, Junho 07, 2008

Reverso da medalha


"falling out of love is as delicate and important a business, and as necessary to the attainment of wisdom, as the reverse experience . . . I think that the exhilaration of falling out of love is not sufficiently extolled."

Stella Ford

From the Guardian by Julian Barnes

Article about The Good Soldier by Ford Madox Ford

Sábado, Maio 31, 2008

"Viver sempre também cansa"



Os escombros são muitos. Falaram-me de caos, no outro dia e eu fiquei a pensar que essa era uma palavra que ia bem com os tempos que se vivem. Mas a paisagem é já de escombros, antes da guerra e da destruição. Como se fosse inelutável.

Lêm-se coisas alarmantes nos jornais, vêm-se coisas indignantes na televisão. Não há só catástrofes naturais. Há catástrofes humanas por detrás de cada ser vivente. Cansa-me este mundo como coisa abjecta. Pensave eu ontem num poeta mito esquecido em Portugal : José Gomes Ferreira, diplomata comunista, senhor de uma cabeleira abundante e toda branca como o Vítor Hugo. Foi um poeta que produziu muito, o meu pai tinha por ele uma admiração sem fim que estava certamente ligada ao profundo humanismo do poeta, mais do que às suas crenças ideológicas.

Quando eu era muito pequenina e estava a aprender a ler, a minha mãe tinha posto no meu quarto uma pequena mesa onde jaziam, à mistura com revistas de modas (Burda! E nós sabemos como ainda hoje a elegância das alemãs tem esse lado frio e demasiado asséptico que sempre me fez detestar o lado convencional do bem-vestir com falsas pérolas). Meu pai andaria na leitura da Poesia I e que ele folheava com vagar. O livro tinha ficado sobre a pequena mesa...

E eu abri-o sem saber que ele iria para sempre revelar-me o mundo que eu preferiria a todos os outros : o da leitura. Aprendi a soletrar e a ler com o José Gomes Ferreira e tanto o li que acabei por decorar versos.

O que me ocupa aqui esta noite é o "viver sempre também cansa". A bon entendeur salut!

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Soyons réalistes, demandons l'impossible.



Sempre adorei esta fotografia. Do que eu gosto é da irreverência sorridente do Cohn-Bendit que resumia a irreverência toda total completa desses tempos. Tempos que eu vivo um pouco por empréstimo, não sou completamente dessa geração, era demasiado nova ainda.

Estes políticos de meia-tijela franceses actuais e adeptos do Sarkozy bling-bling (o presidente com o maior mau gosto do mundo, feio, pequeno e com ideais iguais ao físico dele) querem muito desacreditar os acontecimentos de maio 68. Há, no fundo disso, parece-me, como um medo profundo que uma nova revolução venha por aí. Não vem, hélas!


Um movimento que deixou escrito pelas paredes "sous les pavés la plage..." e "interdit d'interdire" só pode ter sido uma imensa lufada de ar novo, um vento implacável de liberdade. E não é de nostalgia de que aqui falo, a história não se repete tanto assim. Mas que me apetecia qualquer coisa deste género tão único e raro, sim!


Domingo, Abril 27, 2008

Esquecimento




Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira, Obra Poética II

Start me up


Apetece-me dizer que tive um gato a que chamei Gaston e que me faz falta como um ser humano. Também a Truffe, a minha preta cadela Labrador me dá saudades.

Apetece-me dizer que não gosto do mundo em que vivemos. Detesto o Bush carniceiro, O Blair e o Gordon Brow mais o Sarkozi bling-bling. Os meus animais são mais humanos que eles.
Apetece-me dizer que o progresso não tem significado se não fôr posto ao serviço do homem e não tornando-o servo.

Apetece-me dizer dos amigos que tive. Luis Miguel Medalha meu irmão, meu feiticeiro, meu anjo de amor nunca consumado, minha voz, minha inteligência, meu desespero, minha luta, meu ardor, meu desejo. Chico Marujo, minha chalupa de viajar, meu ronco de fera, meu seio de amor, meu encontro, meu praguejar, meu marinheiro. Meu primeiro amor, Francisco Lança, que não me ensinou muito senão a amar os outros homens que depois vieram até mim, amor de criança, sem sal nem alarme, amor de aprender a soletrar, amor para depois, amor esquecido. Miguel, minha fúria de possuir, meu desejo enfim dito, ritmo e fragor, sôfregos e aprendizes, marca indelével no corpo. Inesquecível.
Apetece-me trazer junto a mim os fantasmas, os livros lidos no espanto e na voragem, a música. Reuni-los talvez uma última vez numa constelação de estrelas do meu firmamento. Convidá-los, uma vez mais e como disse a alguém que não compreendeu nada, para minha casa e recebê-los, as mãos ainda cheias de farinha, no jeito de as limpar ao avental para que melhor eles relembrassem minha muito cozinheira mãe.

E apetecia-me tê-los perto de mim, junto à lareira, cheios de risos, copos de um vinho amigável tilitando, o meu pai observando com o seu sorriso calmo, o seu sorriso infinito. Apetecia-me a conversa solta, revolteando, o olhar mais intenso de um rapaz que eu tivesse amado sobre as minhas ancas, a ternura de um outro, a carícia no rosto fraternal.

Apetecia-me as amigas, Romi a esbanjadora de amor, uma velha Ana Santiago que já não existe com o seu verbo alto, de uma Manecas irmã mais velha indicando o caminho, de uma Manela frágil...

Apetecia-me acabar com o exílio e a solidão a que ele obriga.

Mas não me apetece chorar.